sexta-feira, 29 de junho de 2012

Obras Primas do Conto Fantástico


Vou revelar algo... Não sou do tipo que se influencia com histórias ou contos sobrenaturais. Posso levar aquele impacto de momento e até mesmo ficar uns dois ou três dias com os pelinhos da nuca eriçados, mas depois ‘zefini’. Por mais amedrontador que seja, o “causo” sempre passa sem deixar marca. Bem... quero dizer... a não ser naquela noite... Caraca!! Porque tenho que recordar justamente aquela noite!! Ok., já que comecei vamos à ela.
Tudo teve início há uns 15 anos, quando o blogueiro aqui, juntamente com um grupo de amigos resolveu acampar numa propriedade, digamos que ‘isolada do resto do mundo’, onde acontecia uma cavalgada; festa tradicional em nossa região. A fazenda tinha o seu próprio acampamento, mas a nossa tchurma optou por levantar as barracas num lugar afastado, perto de uma lagoa. Então, todas as noites, reuníamo-nos em torno de uma fogueira e começamos a jogar conversa fora. Na segunda noite de evento, após cavalgarmos bastante, estávamos eu, o Digão, o Francisco, a Kika, a Junia e o Marquinhos reunidos em volta da inseparável fogueira, quando perto da madrugada friorenta, o Digão (sempre ele – rs) teve a idéia de fazer um jogo que consistia em que cada um dos seis contasse uma lenda urbana. Aquela que mais assustasse seria a vencedora. Nós mesmos, de comum acordo, faríamos a escolha da estória mais apavorante. E lá vamos nós...
Duas lendas urbanas, se não me engano narradas pela Junia e o Marquinhos, me perseguem até hoje. A primeira, da Junia, sobre um casal de namorados que está no maior dos amassos dentro do carro numa clareira isolada; e prá variar, de madrugada. Os dois ouvem um barulho estranho no meio do mato, bem próximo ao veículo e assustados, resolvem ir embora. Enquanto estão na estrada, a moça resolve ligar o rádio e ouve a seguinte notícia: “Fugiu de um manicômio um perigoso homicida. A sua aparência é terrível, já que não tem orelhas, a metade do nariz, além dos dentes podres, tortos e encavalados. Ele está usando uma roupa de palhaço o que torna a sua aparência ainda mais horrorosa. Muitas pessoas que viram o “monstro” acabaram desmaiando, o que facilitou o seu trabalho. Ele não tem a mão direita, que foi substituída por um gancho, o qual usa para destripar as suas vítimas. Qualquer informação, favor avisar a polícia através do número...”
Após ouvir a notícia, o assustado casal de namorados descobre que o carro está quase sem combustível. Então, eles resolvem parar num posto de beira de estrada.  Ao descer do carro para pagar o frentista... o que é que acontece???. Tanto o rapaz quanto o frentista olham assustados para um horrível gancho todo ensanguentado grudado na traseira do carro que encontra-se toda riscada.”
Lenda urbana: O assassino do gancho
Cara!! Depois que a Junia me contou essa lenda urbana. Ai, Ai, Ai!!! Ela me persegue até hoje.
Quanto a segunda lenda, contada pelo Marquinhos, prefiro deixar pra lá... não estou com disposição, nem estômago para narrar a história daquele sujeito que tinha o hábito de olhar debaixo da cama todas as noites antes de dormir... Detalhes: ele morava sozinho e ficava lendo histórias de terror até de madrugada... Numa dessas noites solitárias, ele se abaixou e no momento em que olhou por debaixo de sua cama... bem melhor deixar prá lá... A lenda urbana da Junia ainda dá para ‘engolir’ fazendo careta, mas a do Marquinhos, acho que o coração do balzaqueano aqui não agüentanria. Além do mais estou escrevendo esse post por volta de 23 horas. Melhor esquecer.

Olhar embaixo da cama não é um bom negócio
Mas pêra ai! Você deve estar se perguntando o que tudo isso que eu escrevi tem a ver com “Obras Primas do Conto Fantástico”, livro de contos de terror lançado em 1961 pela Martins Editora. E eu respondo: Cara! Tem tudo a ver, pelo menos no meu caso! O mesmo medo e desconforto que senti, ou melhor, ainda sinto, com essas lendas urbanas acabou se repetindo, após ter lido os contos do livro. No dia em que comecei a ler as 27 estórias curtas de terror de feras como Edgard Alan Poe, Maupassant, H.G. Wells e pasmem Monteiro Lobato! Isso mesmo, Monteiro Lobato, entre outros; foi como se tivesse entrado numa máquina do tempo e voltado 15 anos atrás naquele acampamento, à noite, com os meus amigos, sentados ao lado de uma fogueira, ouvindo aquelas estorinhas macabras.
Não que a coletânea de contos, brilhantemente organizada por Jacob Penteado, traga apenas em seu contexto lendas urbanas; há histórias de terror de todos os tipos, do gótico ao fantástico, e passando por seres fantasmagóricos. Ocorre que as histórias metem medo, de fato, podendo ser consideradas verdadeiras obras primas do gênero, fazendo jus ao título do livro.
Não vou comentar nesse espaço todos os 27 contos selecionados por Penteado, quero citar apenas três. Os três que conseguiram provocar aquele arrepio esquisito que começa na base da espinha e vem subindo... subindo... por toda a extensão da coluna vertebral até atingir a nuca, arrepiando todos os cabelinhos do pescoço. Urrrrrrrr
O Fantasma Inexperiente (H.G. Wells).
Este conto foi aquele com o qual mais me familiarizei, pois os personagens e o contexto da narrativa lembram muito a situação que vivi com os meus amigos contadores de histórias de 15 anos atrás. Vamos à ele...
Num fim de semana, Clayton resolve reunir os seus amigos em um clube, onde habitualmente se encontram, para contar uma história estranha e ao mesmo tempo macabra. Ele relembra que certa noite, quando estava sozinho no clube, encontrou um fantasma perambulando pelos corredores. Clayton não dá a mínima para os olhares incrédulos e perguntas sarcásticas de seus amigos e segue com o relato tranquilamente. Clayton diz ser este um fantasma único, que guardara traços de seu ser terreno, um fantasma fraco, sem talentos fantasmagóricos e inexperiente. Após conversar com o fantasma, ele descobre que o espectro saiu do mundo dos mortos e ficou perambulando, meio perdido naquele clube, local tão  propício a uma assombração, com seus corredores sóbrios e painéis de madeira nobre. Para voltar ao seu mundo ou a sua dimensão, o inexperiente fantasma deve fazer uma espécie de dança com uma sequencia de movimentos únicos numa ordem premeditada que o pobre coitado não consegue reproduzir. Chega um momento, que finalmente, o fantasma acerta os movimentos e assim, vai embora para a terra dos mortos.
Quando chega a esse ponto da história, Clayton já consegui arrebatar a atenção de todos os seus amigos que se encontram em torno da mesa do Clube – e não de uma fogueira (rss) – é quando acontece o inusitado! Aliás, um inusitado arrepiante, daqueles de provocar c-a-l-a-f-r-i-o.
Bugio Moqueado (Monteiro Lobato)
Monteiro Lobato
Pode parecer incrível, mas é verdade. Um dos maiores autores de histórias infantis do mundo que fez a alegria de milhares de crianças no Brasil com Narizinho, Pedrinho, Dona Benta e companhia, também escreveu um dos contos de terror mais apavorantes que já li em minha vida.
Diz o ditado que o escritor de terror que se preze deve ter a capacidade de assustar escrevendo histórias que se enquadrem num contexto real, utilizando elementos que fazem parte do nosso dia a dia, sem apelar para monstros, fantasmas, seres sobrenaturais e outras “cositas más”. Posso afirmar com toda convicção que após ler “Bugio Moqueado”, cheguei a conclusão que Monteiro Lobato faz parte desse grupo seleto.
O conto que me provocou calafrio tem como cenário uma fazenda localizada lá nos confins de Mato-Grosso. É narrado por um velho que recorda a terrível experiência vivida na fazenda do coronel Teotônio, onde foi comprar algumas cabeças de gado.
Ao chegar na propriedade, ele é recebido pelo coronel que tem fama de carrasco, maldoso e sem escrúpulos. Antes de fechar o negócio, o narrador da história é convidado a se sentar à mesa para jantar. É a partir daí que o caldo engrossa. “Sente só” alguns trechos do conto terrificante: “Era um casarão sombrio, a casa da fazenda. De poucas janelas, mal iluminado, mal arejado, desagradável de aspectos e por isso mesmo toante na perfeição com a cara e os modos do proprietário...” “A sala de jantar semelhava uma alcova. Além de escura e abafada, rescendia a um cheiro esquisito, nauseante, que nunca mais me saiu do nariz — cheiro assim de carne mofada…”. Quer mais?, OK? Confere só esse trechinho: “Sentamo-nos à mesa, eu e ele, sem que viva alma surgisse para fazer companhia. E como de dentro não viesse nenhum rumor, conclui que o urutu morava sozinho... “ “Em dado momento o urutu, tomando a faca, bateu no prato três pancadas misteriosas. Chama a cozinheira, calculei eu. Esperou um bocado e, como não aparecesse ninguém, repetiu o apelo com cer­to frenesi. Atenderam-no desta vez. Abriu-se devagarinho uma porta e... e... e...  bem vou parar por aqui.
Só um lembrete. Saibam que bugio significa uma espécie de macaco ou então um termo para classificar uma pessoa feia e desengonçada.  Já o significado de moquear é secar a carne no fogo para conservá-la.
Bem... leiam o conto; mas se preparem muito bem antes.
A Mão do Macaco
Quer ser perseguido por pesadelos macabros? Então leia esse conto antes de dormir. Talvez, você nem chegue na fase dos pesadelos, já que “A Mão do Macaco” não irá deixá-lo dormir. Isto quer dizer que a sua noite será ....inesquecível; no pior dos sentidos.
O conto foi escrito pelo londrino William Wymark Jacobs e publicado pela primeira vez em 1902, alcançando um grande sucesso. A história foi adaptada para o teatro e o cinema inúmeras vezes, mesmo assim, muitas pessoas ainda não conhecem esse conto.
“A Mão do Macaco” nos ensina uma importante lição: a de que o homem jamais deverá desejar muito o que quer que seja, pois o bem alcançado  nem sempre vale o que se perdeu para conquistá-lo.
Neste conto, um casal ganha um amuleto maldito, o qual resolve utilizá-lo para satisfazer a sua ganância. Eles tem direito a três pedidos. É aí que o terror começa...
Além desses três contos, “Obras Primas do Conto Fantástico” brinda os seus leitores com muitas outras histórias horrendas (no bom sentido, é claro. Ehehehe).
É evidente que em todas as obras de coletâneas, sejam de terror ou não, nem todos os contos agradam. No livro organizado por Jacob Penteado não é diferente; existem, com certeza, aquelas narrativas mais fracas, mas por outro lado, pode acreditar que a maioria dos 27 contos vale a pena ser lido.
Confiram a relação das histórias e seus autores:
01 – Avatar (Teófilo gautier)
02 – O Espelho (Gastão Gruls)
03 - Um louco? (Guy de Maupassant)
04 – Métempsicose (Walter Poliseno)
05 – Os Ratos do Cemitério (Henry Kuttner)
06 – Delírio (Afonso Schmidt)
07 – O Diabo Maltrapilho (Victor Hugo)
08 – A Mão do Hindu (Conan Doyle)
09 – O Macaco Travesso (Matteo bandelo)
10 – Uma Noite Sinistra (Afonso Arinos)
11 – O Recoveiro (Alexandre Pushkin)
12 – Os Óculos de Titbotton (Jorge William Curtis)
13 – Camarote 105, Beliche de Cima (Marion Crawford)
14 – A Mão do Macaco (William Wymark Jacobs)
15 – A Missa das Sombras (Anatole France)
16 – O Fantasma Inexperiente (H.G. Wells)
17 – A Senhora Frola e o Senhor Ponza (Luigi Pirandello)
18 – A Experiência do Doutor Velpeau (Villiers de L'Isle Adam)
19 – O Rei dos Leprosos (Jack London)
20 – A Máscara Vazia (Jean Lorrain)
21 – Encontro em Samarra (Somerset Maughan)
22 – A Mentira (Leónidas Andreyeff)
23 – O Que o Diabo me Contou (Giovanni Papini)
24 – A Ficha nº 20.003 (Viriato Correa)
25 – William Wilson (Edgard Allan Poe)
26 – O Jogador Generoso (Charles Baudelaire)
27 – Bugio Moqueado (Monteiro Lobato)
Ah! Antes que esqueça. Deixe-me dar  uma excelente notícias. Você pode encontrar “Obras Primas do Conto Fantástico” em qualquer sebo on line...
Boa leitura... e bons sustos!
Inté!

6 comentários:

  1. A Mão do Macaco é citado em Pet Sematary, do Stephen King. Tenho curiosidade quanto a esse conto.

    Abraço.
    regthorpe.blogspot.com

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    1. Augusto,o conto é fantástico e tem uma aura horripilante.... O final, quando acontece a 'batida na porta' é de gelar o sangue....
      Pode conferir...
      Grde abraço!!

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  2. Olá José Antonio, primeiramente parabéns pelo blog. Acompanho sempre.

    indiquei o seu blog para um "Meme" de 11 perguntas sobre livros no meu blog. http://www.katia100.blogspot.com.br/

    Se quiser participar é só ir lá.

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  3. Obrigado Kátia! Tbém gostei de seu blog.
    Abcs e volte sempre!

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  4. Antologias de contos são sempre uma boa pedida entre um romance e outro... Mas, incrivelmente, nunca me arrepiei tanto assim com o conto A Mão do Macaco. É uma história brilhante, isso não posso negar. Mas uma das que mais me assustou foi O Sinaleiro, se não me engano de Charles Dickens.... Esse vale uma madrugada chuvosa... kkkkkk... Abraços e parabéns por mais uma bela postagem!!!!

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    1. Marcelo, de fato, "Mão do Macaco" é mil vezes horripilante.... Tipo aquela história cujo terror vai ganhando forma aos poucos. Vai crescendo, crescendo, crescendo e quando chega perto do final, a sensação de medo cola em nosso corpo como um perfume bem forte. Quanto ao "Sinaleiro", li e também gostei. Aliás, a maioria das história da coletânea de Ítalo Calvino em "Contos Fantásticos do Século XIX" são espetaculares.
      Abcs e volte sempre!!

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