segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Espírito do Mal

Existem livros que podem ser considerados verdadeiras lendas. Seus escritores foram tão felizes na hora de desenvolver o enredo que fizeram tudo na medida certa: início, meio e fim; tudo bem dosado, não se esquecendo é claro da linha narrativa capaz de prender a atenção do leitor da primeira a última página. Os livros que se enquadram nessa categoria são intocáveis e não merecem uma continuação porque, com certeza, a sua sequencia jamais irá chegar “aos pés” da história original. Como não bastasse, esta suposta segunda parte corre o risco de manchar a obra original e o seu autor.
Quantas obras soberbas tiveram continuações ridículas, algumas risíveis. Que o digam “Scarlett”, de Alexandra Ripley e “O Clã de Rhett Butler, de Donald McCaig que tentaram seguir a trilha do imbatível e único “E O Vento Levou”, de Margareth Mitchell. Estes dois livros se tornaram grandes fiascos porque os seus autores insistiram em sequenciar uma obra intocável, escrita na medida por Mitchell. Se vasculharmos a história da literatura contemporânea romanceada encontraremos uma infinidade de outros exemplos de obras que jamais deveriam ter tido uma continuação, mas... infelizmente tiveram.
“O Espírito do Mal”, proclamado como suposta sequencia do clássico de terror “O Exorcista”, de William Peter Blatty se enquadra perfeitamente nessa categoria. Você percebeu que escrevi “suposta sequencia”, porque o livro não lembra em nada a história original. A impressão que tive foi a de estar lendo uma história policial com toques de sobrenatural. Tanto é, que em certo momento cheguei a exclamar: “Pêra aí! Acho que peguei o livro errado!!”.
Cara! O confuso enredo de Blatty está mais para um romance policial relé do que para uma continuação da história... da história... da história... Caramba! Não dá para ter uma nova história de “O Exorcista” depois da morte do padre Damien Karras. O sacerdote, simplesmente, deixou de existir naquele capítulo antológico em que conseguiu expulsar “a socos” o demônio Pazuzu do corpo da pequena Reagan. Os dois  personagens principais - os padres Merrin e Karras - morreram; quanto a Reagan, ficou liberta e Pazuzu, dançou; sobrou quem para uma sequencia??? Ninguém! Pera aí... ninguém não! Sobrou o chato do Kinderman, aquele inspetor amorfo que no livro “O Exorcista” foi o responsável pela investigação dos casos de violações e mortes provocados pela pequena Reagan possuída. E confesso prá vocês que agüentar as divagações filosóficas do tenente que ocorrem durante todo o romance é um saco. Não existe um capítulo liberto dessas divagações, do tipo: se os computadores pensassem o que poderia acontecer com as pessoas? O mal existe, de fato? O ser humano age por instinto ou pelo coração? Sem contar as citações teológicas e psicanalíticas, principalmente sobre Jung.
Tudo bem que eu considere o Exorcista uma obra única e por isso com o direito de não ser deturpada com uma sequencia, mas quando tomei conhecimento que William Peter Blatty havia escrito uma continuação para o grande clássico da literatura de terror, confesso que fiquei hiper curioso para ler e... tudo bem, confesso novamente, que nutria um pinguinho, mas só um pinguinho de esperança de que o livro seria pelo menos razoável. Bem... aqueles que leram o post até aqui já sabem o que aconteceu depois: uma decepção enorme do blogueiro aqui.
Além das divagações do tenente Kinderman, o autor teve a infeliz idéia de transformar o Pe. Karras numa espécie de zumbi. De acordo com o enredo de “O Espírito do Mal”, após a morte do padre, um espírito se apossa do seu corpo e faz com que ele se transforme numa espécie de morto vivo. Vou parar por aqui para não “estragar”, se é que vou estragar, a expectativa daqueles que pretendem ler a obra.
Como já disse logo no início, “O Espírito do Mal” não lembra em nada uma continuação de “O Exorcista”, mais se parece com uma história policial e daquelas bem confusas. No enredo preparado por Blatty; o tenente Kinderman passa a investigar os brutais assassinatos cometidos por um suposto serial killer que elimina suas vítimas com requintes de crueldade. Fazem parte das suas estatísticas:  um menino negro que é terrivelmente mutilado e pregado numa cruz; dois padres mortos, um decapitado e o outro com todo o sangue do corpo retirado; além de uma enfermeira que Arghhhh... melhor esquecer, deixo essa parte para quem for ler o livro. Kinderman associa os atuais assassinatos com uma série de outros bem semelhantes que aconteceram há 10 anos atrás cometidos, naquela época, por um psicopata conhecido apenas por “Gêmeos”. Suas vítimas começavam todas com a letra K e ele tinha o hábito de cortar o dedo indicador da mão esquerda do morto, além de riscar na mesma mão esquerda o signo zodiacal de Gêmeos.
Durante a maior parte do livro, Kinderman passa caçando o criminoso, acreditando ser um psicopata que esteja seguindo o modus operandi do serial killer ou ainda o próprio Gêmeos que teria voltado a atacar, já que há 10 anos, sua morte ficou que, digamos, no “ar”.
William Peter Blatty, no decorrer da história dá a ficha completa de Gêmeos, explicando os fatores que levaram um rapaz educado e de boa índole a se tornar um dos mais perigosos psicopatas que a polícia americana já conheceu. O leitor conhece também em riqueza de detalhes toda a família de Kinderman – sua mulher, filha e sogra – incluindo uma carpa que é criada, pela sogra do policial, na banheira onde ele costuma tomar banho. Conhecemos também um médico esquisito chamado Dr. Amfortas que tem o habito de se comunicar com os mortos; e assim, vai se arrastando o romance de Blatty; uma verdadeira salada russa que mistura assassinatos; serial killer; conflitos familiares com direito a envolvimento de sogra; assassinatos violentos, entre os quais decapitações, amputações e crucificações; e divagações filosóficas entre o bem e o mal. Elementos referentes ao enredo de “ O Exorcista”? Olha, sinceramente, são muitos poucos, em conta-gotas. Temos o Pe. Karras, transformado em zumbi e com uma presença insignificante no enredo da história; o Pe. Dyer, amigo de Karras, mas que teve uma presença ínfima em “O Exorcista” e Kinderman acompanhado de seu fiel escudeiro Atkins. Esqueça a ex-possuída Reagan, sua mãe, o demônio Pazuzu e até mesmo alguns flashbacks sobre a vida do carismático Pe. Merrin. O enredo de “ O Espírito do Mal” tem muito pouco, bem perto do nada que lembre uma sequência da obra prima “ O Exorcista”.

2 comentários:

  1. Pretendia ler este livro, mas acho melhor não, senão vai manchar a bela imagem que tenho de "O Exorcista" em minha mente. Só de lembrar nos poucos diálogos monótonos e exaustivos que Kinderman matinha na obra prima de Blatty, agora um livro todo somente com eles, já me desanima... Só faltou aparecer a guria viciada em heroína no livro.

    PS: Achava que a história da carpa era tudo balela pra enrolar mais ainda quem Kinderman estava questionando.

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  2. Bom eu li enquanto estava no litoral, vamos se dizer que no mínimo é uma verdadeira confusão, confesso que esperava um trama cheio de terror e suspense mas me decepcionei, até certo ponto do livro estava bom como um trama policial, mas na entrada da padre Karras, o livro meio que perdeu o sentido!! mas ainda acreditando na genialidade de W.P Blatty, hoje comprei "Direi que lembro de você" agora vamos ver oque me aguarda rsrsrs abrçs

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